O futebol se prepara para ficar ‘órfão’ de Messi


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O futebol se prepara para ficar ‘órfão’ de Messi

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Quando protagonizou a transferência mais cara do futebol mundial ao trocar o Barcelona pelo PSG há três anos, Neymar vislumbrou, além do retorno financeiro, um atalho para alcançar o objetivo de se tornar a liderança técnica de um grande clube europeu e, consequentemente, o melhor jogador do mundo. Mas vieram as lesões, os problemas de relacionamento com companheiros e o despontar meteórico de Mbappé, que, somados aos fracassos do time bilionário na Champions League, acabaram frustrando os planos do craque brasileiro, até então imune a regressões na carreira.

Pela primeira vez à disposição no mata-mata da Liga dos Campeões pela equipe parisiense e em sua melhor forma física, o atacante agora consegue enxergar como realidade o troféu que motivou sua contratação, depois de ser decisivo nos embates contra Borussia Dortmund e Atalanta. Voltou a jogar bem contra o RB Leipzig nesta terça-feira, levando o Paris Saint-Germain a uma final inédita, a uma vitória de conquistar o mais badalado torneio de clubes do planeta. Seria o desfecho triunfal de uma reviravolta que parecia improvável, sobretudo após forçar a volta ao Barcelona e a acusação de estupro —arquivada pelas autoridades por falta de provas— no ano passado.

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Neymar e o desabafo patrocinado do atleta-produto“Jogador mimado e mercenário”: a pecha que encobre o preconceito de classe no futebolPSG e a competição financeira desleal dos clubes europeus Neymar, da chegada triunfal em Paris à permanência indesejada no PSG

Obstinado a cumprir a missão em Paris, Neymar deu um giro na condução de sua imagem pública nos últimos meses, fazendo com que a figura do jogador finalmente se sobreponha à de popstar. Mostras de companheirismo, esforço para interagir com colegas e torcedores do clube, discrição em festas e eventos sociais, bom humor e leveza nas entrevistas, “o pai tá online”… A versão adulta do “menino Ney”, embora em fase de amadurecimento, se materializou em campo. Na França, conquistou todos os títulos possíveis da temporada. Na Champions, chamou a responsabilidade e foi a estrela da companhia nos minutos em que Mbappé esteve fora de combate.

Apesar dos desgastes que se acumulam desde a eliminação com a seleção na Copa de 2018, a idolatria do maior jogador brasileiro em atividade não se abalou entre a geração que o viu surgir para o futebol. Pelas redes sociais, vários perfis mudaram a foto do avatar em homenagem a Neymar, que atendeu os apelos e resgatou o corte moicano para o duelo diante da Atalanta. Uma onda que remeteu aos tempos da Neymarmania, cerca de uma década atrás, época em que ele despontava como grande promessa do Santos. A mobilização que o abraça na reta final da Liga dos Campeões representa a geração de torcedores carente de um ídolo nacional.

Aos 28 anos, Neymar ainda não tem uma Copa, tampouco chegou perto de desbancar Messi e Cristiano Ronaldo do reinado de melhor jogador do mundo. Mas já construiu uma carreira respeitável na Europa, com títulos da Champions, Mundial de Clubes e campeonatos francês e espanhol. É o atleta brasileiro com o maior número de gols e assistências na competição europeia, a despeito de lendas como Rivaldo, Romário, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Se no tempo deles, a safra dourada entre os anos 90 e 2000, havia craques de sobra na seleção e ao menos uma dezena de brasileiros protagonistas em seus times europeus, o cenário atual é de dependência de Neymar, em quem a torcida que não acompanhou de perto a era dos “R’s” segue depositando todas as fichas para que o Brasil volte a levar uma Bola de Ouro depois de 13 anos de jejum.

Caso tivessem estourado no mesmo período de Neymar, alvo de escrutínio incessante e condenações sumárias dos justiceiros de internet, Ronaldo e Romário provavelmente seriam cancelados bem antes de ganhar uma Copa do Mundo. A velocidade de informação deixou as análises de futebol cada vez mais imediatistas. O craque de hoje se torna o vilão de amanhã. Os que tacharam Neymar de mimado na Copa passada são praticamente os mesmos que o idolatram e torcem por ele como se fosse um time à parte na Liga dos Campeões.

Nesse círculo revolto, os vereditos sobre o atacante do PSG tendem aos extremos. Há os que amam e os que odeiam. Os que passam pano para as atitudes reprováveis e os que criticam até mesmo os acertos. Os que são Neymar FC acima de tudo e os que se recusam a reconhecer seus méritos como atleta pela falta de posicionamentos fora do campo. A mudança de postura pode ser temporária, um sprint final para converter o tão esperado título da Champions em senha para uma saída honrosa do clube francês. Ainda assim, seus fãs continuarão levantando hashtags, enquanto os haters não perdoarão qualquer deslize.

Ninguém é obrigado a torcer por Neymar, mas é impossível ficar indiferente quando seu talento com a bola nos pés se impõe ao astro pop que, campeão ou não, jamais vai conseguir alcançar o pedestal da unanimidade com a qual somente o futebol será capaz de premiá-lo.

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